Serviço Pós-Venda da Minha Sanidade Mental

Serviço Pós-Venda da Minha Sanidade Mental

o conteúdo abaixo tem uma linguagem com vários piiiiiisss

A pessoa medita.
A pessoa pratica desporto.
A pessoa é empática.
A pessoa diz bom dia.
A pessoa pede por favor.
A pessoa agradece.

A pessoa faz toda uma série de coisas para viver em sociedade na paz do Senhor.

E depois… existem pessoas. PESSOAS

E como existem pessoas, começo a achar que muitas destas terapias modernas para ser uma criatura tranquila são profundamente unilaterais. Porque, ao que parece, só eu é que ando a tentar. Só eu é que respiro fundo. Só eu é que conto até dez. Só eu é que me trabalho. Porque há pessoas no mundo que existem com uma única tarefa : dar-me nos nervos. É a sua tarefa. Testar sanidades mentais.

Estou cega. Cega mesmo. Daquelas cegueiras quentes que sobem do estômago para a cabeça e me apagam a parte racional do cérebro.

Serviço pós-venda.

Primeiro, o ginásio. Decidi que queria sair. Só isso. Não estava a pedir um rim, nem a dissolução de um casamento, nem metade de uma herança. Queria cancelar uma inscrição. Uma coisa adulta. Normal. Civilizada.

Mas ginásios — com todo o respeito — na maioria são incríveis a inscrever pessoas e absolutamente geniais a dificultar saídas. Entrar é tipo porta aberta. Sair parece que estou a abandonar a NASA.

“Temos de ver o seu contrato.”
“Tem fidelização.”
“Não, mas há um automatismo de três em três meses.”
“Mesmo depois de um ano.”
“Mesmo avisando com 30 dias.”
“Mesmo que a menina só queira ir à vida dela.”  …e mais mil mimimimi….

Resultado: para sair de um sítio onde já estou há 3 anos, tenho de pagar mais não sei quanto. Porque algures, nas 30 páginas que me mandaram assinar, estava lá escrito.

E estava.
A responsabilidade é minha. Eu sei.

Mas não deixo de achar fascinante como se constrói um modelo inteiro baseado no cansaço, na distração e na boa-fé das pessoas. Leiam tudo, malta. Tudo. Até às vírgulas. Não sejam como eu, que acredita que as coisas são mais simples do que são. Ainda estou mais enervada porque sou burra. B -u r-r- a. A sensação de que estou a ser roubada e ainda dou um jeitinho ao bolso para ser mais fácil leva-me para um sítio muito irracional e pouco digno… mas não aguento.

 

Segunda parte: telemóvel da minha mãe.

Comprado em setembro. Segunda vez com problemas. Vou ao serviço pós-venda. Digo bom dia. Explico com calma. Peço ajuda.

“Tem de ir para a marca.”
“Não podemos fazer nada.”
“Trinta dias é o prazo legal.”

Leiam isto com um ar altivo, em que nem olham para a cara de ninguém — tipo “és um monte de merda”. Neste tom.

Pergunto quanto tempo costuma demorar, já na contagem até 17.373.494.994.
“Não sabemos. Trinta dias é o prazo legal.”

Pergunto se há forma de verificarem ali alguma coisa, porque realmente o telemóvel vai fazer muita falta.
“Não. Trinta dias é o prazo legal.”

Pergunto se existe telefone de substituição.
“Não.”

Sempre assim. Seco. Frio. Defensivo. Do alto da burra. E eu já estou com aquela cara de se abres outra vez a boca eu posso tentar perceber se a minha esquerda ainda é tão boa como diziam no kickboxing.

Não é o prazo que me fode o cérebro.
É a ausência absoluta de empatia.

Era assim tão difícil dizer:
“Percebo. É chato. Ainda por cima a segunda vez. Vamos tratar disto. Este é o prazo máximo legal, mas vamos tentar que seja mais rápido.” Mudava tudo. Tudo. Até podia demorar mais do que 30 dias que eu aceitava. Até equacionei comprar outro porque este nunca mais se salva, eu acho. Mas não. É a data. É o procedimento. É o escudo. É o cliente do outro lado que se foda. Deixei o telemóvel. Legalmente impecável. Humanamente uma miséria. E a mim não me vendem rigorosamente mais nadinha — e posso dizer que até era uma cliente bem razoável.

Eu tenho um respeito enorme por quem atende ao público. Enorme. Sei que é difícil. Sei que é mal pago. Sei que lidam com pessoas horríveis todos os dias. Que raramente estão a fazer o que gostam. Muitas das vezes um segundo trabalho. A recibos-verdes. Sei e sou sensível a tudo isso. Por isso abordo com respeito.

Mas há mínimos.

Eu não sou o saco de boxe emocional de ninguém. Mas posso transformar alguém num saco de boxe quando me ativam o meu pior lado — e não é nada bonito, não tenho orgulho nenhum nele. Nenhum! Mas também não tenho de levar com frustrações que não são minhas nem tenho que ser educada por dois.

E sim: as marcas continuam sem perceber o óbvio. É GRITANTE.
É infinitamente mais caro arranjar clientes novos do que cuidar dos que já existem. Analisem números, por amor da santa acordem para a vida. O pós-venda é mais importante do que a venda. Muito mais. O pós-venda é fidelização, é marketing gratuito, é o vosso cartão de visita apresentado por quem já vos conhece. Um cliente satisfeito traz um quantos mas o insatisfeito leva o dobro.

E agora que sucede…o que acham que vai suceder? Vou-me agarrar aos chocolates ou a coisa semelhante para me acalmar porque, meus amigos, nenhuma meditação resolve sozinha este gatilho que se chama: Falta de Empatia.

Just like Eli 

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