O conhecimento só serve quando circula
Sou sobre pessoas. Sempre fui. Mesmo quando ainda não sabia sê-lo. Mesmo quando não me aceitava inteira. Mesmo quando não colocava limites. Mesmo quando me deixava ficar onde não era bem tratada. Hoje sei: sou das pessoas. Das que acrescentam. Das que são totalmente díspares de mim. E há muitas. Tenho muitas. Uso muitas vezes, em tom de brincadeira que carrega uma verdade inteira, a frase: “Para que me serves ? Ou ficas e acrescentas, ou a vida segue e dás lugar a outra pessoa.” Parece duro. Parece interesseiro. Parece até frio. Mas não é. Acrescentar-me não é ocupar um espaço, é criar espaço. É dar-me espaço. É ser leve. É ser empático. É ser transparente. É colocar-me no lugar certo. É fazer-me rir. É ouvir-me. É simplesmente estar. É uma mensagem de bom dia inesperada. É falar limpo, sem jogos, sem estratégias. É provocar-me, puxar por mim. Há mil e uma formas de alguém me acrescentar. Incluindo saber que depois de almoço só tomo abatanado descafeinado.
Sou uma projectora do mais emocional que existe, num perfil 2/4. Vejo o melhor das pessoas quase sem esforço. Dizer-lhes, ou mostrar-lhes, aquilo que vejo é um verdadeiro carregador de bateria. Em mim, curiosamente, não vejo tão bem o que sou. Miopia em estado avançado. Preciso que me vejam e me digam para eu me poder entender, acreditar e aceitar. Ser projectora é isto, por isso, projectores cuidado com as pessoas que incluem na vida. Talvez seja por isso que tenha tanto excitex em revelar o brilho que reconheço em cada um. E não é figura de estilo, eu vejo mesmo. Podem confiar.
Hoje quero falar de uma dessas pessoas. Ana Soares da Costa. A Ana.
O livro da Ana — Redescobre-te com o Human Design — não sai da minha prateleira. Já o li vezes sem conta. Está todo riscado, marcado, dobrado. Tem sinais de muito uso, mas de um uso cuidado, porque não é apenas um livro. É companhia. É referência. É ferramenta de trabalho. Está presente em todas as minhas análises, no meu raciocínio, na forma como olho para o desenho humano, para o mapa, para as pessoas. A Ana foi a única pessoa por quem saí de casa apenas porque queria conhecê-la. Fui a uma apresentação para lhe dizer, ao vivo, o impacto que o seu trabalho estava a ter em mim. E nesse momento percebi de que matéria aquela pessoa era feita. Eu li a Ana ali. Talvez ela me tenha lido também, porque, sem pensar, deu-me o número de telemóvel. Até então falávamos apenas pelas redes sociais. Durante um ano trocámos ideias, dúvidas, desafios. Nada rotineiro. Sempre no nosso ritmo. Uma presença que ainda não é de casa, mas que o corpo reconhece como se fosse.
Ontem aconteceu uma coisa muito bonita. Passámos do áudio, da troca de ideias pelas redes, para algo mais pessoal, mais próximo, mais real. Estivemos três horas a falar e estaríamos mais três, ou mais seis, sem esforço. Três horas a falar de desenho humano, do meu GPS interno, do que sou e do que vim fazer. Do que é desafio e do que é a cena. Das nossas experiências. Do que temos vivido desde que aplicamos o nosso desenho. Das mudanças já identificadas. Do que já entendemos. Do que ainda estamos a tentar entender. De como podemos fazer mais com esta ferramenta absolutamente incrível que de bola de cristal tem zero, mas que promete um futuro mais tranquilo se soubermos usá-la.
Tudo assente numa base: não há concorrência, há partilha de conhecimento. Quando duas pessoas se sentam no mesmo lugar sem armaduras, sem territórios, sem jogos de poder, e partilham o que sabem, o que sentiram, o que pode ser melhorado, o que resulta, o que ainda confunde, o que acontece é expansão. Cada uma dá o que tem, o seu máximo, porque quando cada um dá o seu melhor, no final, juntos, entregamos muito mais. A Ana abre, explica, questiona-se, revê, escuta. Partilha o já longo caminho e pioneiro neste país, não apenas os resultados. Sem filtros. Cria espaço para que eu que também faço análises traga a minha visão, a minha leitura, dúvidas, evoluções. Há abertura para falar do que já está afinado, do que ainda não está, do que quero construir e de para onde quero ir mesmo sem saber qual é o passo seguinte. A Ana impulsiona. Faz muitas perguntas. Lança imensas perspectivas. Porque tem o meu desenho à frente. Sabe ler-me e desafia-me a retirar a camadas da cebola ( sem lágrimas :)) ….foi absolutamente incrível. Uma conversa gravada porque falar de human design é ouvir muitas e muitas vezes e extrair sempre coisas novas. Não é uma consulta é um investimento que valoriza com o tempo, como o nosso vinho do Porto.
Por isso hoje faz sentido falar de reconhecimento. Reconhecimento por encontros que não vêm para nos validar, mas para nos expandir. Por conversas onde ninguém tenta ser mais. Por pessoas que não guardam o que sabem como quem guarda poder, mas que oferecem o que sabem como quem quer servir mais e melhor. Eu sou sobre pessoas. E hoje lembrei-me outra vez que é nas pessoas, quando há verdade, partilha e respeito pelo caminho do outro, que o conhecimento ganha corpo. E é aí que ele cumpre o seu propósito.
Just like Eli
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