Fui ensinar comunicação. Saí a aprender humanidade.

Fui ensinar comunicação. Saí a aprender humanidade.

O convite surgiu num tom de desafio.

“Elisabete, tenho um desafio para ti.”

Estava eu a caminho da procissão de velas em Fátima.

Foi assim que tudo começou. Um telefonema. Um convite quase em cima da hora. Uma formação numa empresa. Um grupo de mulheres. Comunicação. Até aqui, aparentemente nada de novo.

Dar formação não é um território estranho para mim. Comunicar também não. E talvez por isso o meu cérebro tenha organizado tudo instantaneamente: ok, vamos falar de comunicação, mas vamos fazê-lo da forma como eu hoje entendo verdadeiramente a comunicação, através daquilo que estudo, observo e aplico diariamente em mim: o Human Design. Na verdade, eu já faço isto todos os dias. Só iria aplicar essa leitura a uma sala cheia de pessoas.

Depois chegou o briefing: “São mulheres com idades muito diferentes e muito desmotivadas.” E foi precisamente aí que o desafio começou verdadeiramente.

Porque, se eu acredito que a comunicação começa antes de abrirmos a boca, então eu própria teria de comunicar logo na forma como iria aparecer perante elas. Na forma como me iria vestir. Na energia que iria levar. Na leitura que faria daquele espaço antes sequer de começar a falar.

 

Nada do que usei nestes três dias foi ao acaso.

No primeiro dia escolhi não usar cor. Fui neutra. Queria que a atenção estivesse naquilo que iria ser dito e não necessariamente em mim. Queria primeiro observar. Ler o ambiente. Perceber o que realmente existia naquela sala.

Look 1 - Editorial

E depois veio a surpresa.

Porque eu não encontrei mulheres desmotivadas.

Encontrei mulheres diferentes entre si, sim. Mulheres com ritmos diferentes, histórias diferentes, formas diferentes de estar. Mas desmotivadas? Não.

Havia cansaço em algumas. Havia automatismo noutras. Havia vidas inteiras a acontecer ao mesmo tempo. Mas também havia curiosidade, humor, inteligência, vontade de participar e, acima de tudo, vontade de serem vistas para além daquilo que normalmente lhes permitem mostrar.

E isso mudou tudo.

Tudo aquilo que eu tinha preparado teve de ser adaptado à realidade daquelas mulheres incríveis e não à narrativa que me tinham entregue sobre elas. E talvez seja exatamente aqui que a comunicação falha tantas vezes: quando comunicamos para aquilo que assumimos sobre as pessoas, em vez daquilo que elas realmente são.

No segundo dia já fui vestida de outra forma. Com mais cor. Mais expressão. Mais identidade visível. E expliquei-lhes isso. Expliquei-lhes que até a roupa comunica. Que aquilo que escolhemos vestir também é linguagem. Vesti-me com peças da meshmess, umas Flex One obviamente, porque queria que percebessem algo muito simples: podemos ser várias versões de nós ao longo da vida sem deixarmos de ser nós. A comunicação também é isso. Não é criar uma personagem. É permitir que diferentes partes de nós tenham espaço para existir.

Look 4 - Cores vivas

E, no meio disto tudo, houve algo que achei especialmente bonito: elas também me leram a mim. Ao segundo dia já percebiam que eu, às sete da manhã, não sou exatamente uma máquina de entusiasmo verbal. E falámos sobre isso. Sobre ritmos naturais. Sobre produtividade. Sobre a violência silenciosa de tentarmos funcionar todos da mesma forma.

Sem mimmis, disse-lhes que não deixo de ser boa no que faço por precisar de tempo para acordar energeticamente. Apenas aprendi a adaptar a entrega ao meu biorritmo. Se às sete da manhã ainda não estou no meu pico comunicativo, então preparo previamente dinâmicas, exercícios e estrutura para que a sala continue viva enquanto eu também entro no meu próprio ritmo.

Isso também é comunicação.

E, honestamente? Foi incrível ver a forma como compreenderam isso imediatamente. Sem julgamento. Só humanidade. Durante estes três dias aprendi muito mais do que esperava.

Às vezes vivemos tão dentro da nossa própria bolha, dos nossos ritmos, das nossas referências, das pessoas parecidas connosco, que nos esquecemos de como é importante entrar noutros mundos. Observar outras realidades. Ouvir outras histórias. Ver outras formas de viver.

E talvez uma das coisas mais bonitas destes dias tenha sido precisamente essa troca.

Eu fui ensinar comunicação. Mas saí a aprender humanidade.

 

A todas as mulheres que passaram estes três dias comigo: muito obrigada. Obrigada pelas conversas. Pela abertura. Pela honestidade. Pelo humor. Pela forma como receberam algo diferente daquilo que normalmente vos é entregue em contexto de formação.

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Foi leve. Foi divertido. Foi profundo sem precisar de parecer profundo.

E, acima de tudo, foi real.

E, não por acaso, o último look foi brilho.

Look 2 - Editorial


E não se esqueçam: vocês podem ser aquilo que quiserem.
Aliás, na verdade, vocês já são.

Um beijinho,
Eli.