Disseram isto sobre mim e ainda estou a arrumar cá dentro o que senti, porque há elogios que parecem reconhecer um caminho inteiro sem saberem sequer por onde passámos. Este foi diretamente para o pódio das coisas mais bonitas que me disseram.

Quem me conhece há muitos anos está perfeitamente à vontade para vir aqui dizer umas coisinhas, porque eu não fui sempre esta pessoa. Já fui altamente insuportável, intragável e, com a distância que hoje tenho, imagino que bastante cansativa. Para os outros e para mim, embora na altura me parecesse evidente que o problema estava sempre do outro lado. Perdia muito mais do que ganhava, não gostava do que sentia, mas continuava convencida de que, se os outros colaborassem e se comportassem como deve ser, a minha vida seria uma maravilha. Uma teoria muito prática, sobretudo porque dispensava qualquer intervenção da minha parte.

Até que comecei a olhar para dentro e percebi que também tinha ali trabalho à minha espera. E aqui permitam que discorde de uma coisa que se diz muito: na minha experiência, olhar para dentro não foi propriamente o grande acto de coragem. A coragem foi necessária depois, quando tive de olhar para as minhas merdas, reconhecer que eram minhas e deixar de procurar alguém a quem entregar a responsabilidade. Porque uma coisa é perceber que temos feridas, medos, frustrações e formas de reagir que nos prejudicam, outra, bastante menos confortável, é aceitar que aquilo que fazemos com tudo isso também nos pertence. Podemos compreender de onde vêm certas reações sem passar a vida a usar a origem como justificação, tal como podemos reconhecer o que nos fizeram sem entregar a essas pessoas o comando de tudo o que vem a seguir.

Tenho um gatilho, até o momento de proveniência desconhecida, que não fica particularmente bonito por escrito, mas isto também não é uma candidatura a santa: dou tudo para não entrar numa confusão, dou mesmo mas, depois de entrar, dou três, cinco, dez vezes mais para não sair. Nunca fui de andar à procura delas, mas houve uma altura em que bastava o primeiro «ai» para eu aparecer com toda a disponibilidade do mundo para o confronto. Se do outro lado houvesse quem alimentasse, então tínhamos programação para bastante tempo, um descontrolo de quem só sabia parar quando sentisse que ganhava. Não era ter razão, era para me sentir vencedora. Hoje é preciso muito, mas mesmo muito, para eu chegar aí. Essa parte de mim continua cá, atenção, e reconhecer isso faz parte do caminho. Não desapareceu por eu ter começado a meditar, a treinar ou a perceber melhor quem sou, nem estou interessada em fingir uma serenidade que funciona lindamente até alguém testar a palavra certa. O que mudou foi a frequência com que lhe dou espaço, o tempo que consigo criar antes de reagir e a consciência de que nem tudo o que me provoca merece que eu fique.

E é aqui que entra o desporto, que para mim tem um lugar absolutamente crucial nesta história. Claro que não faz o trabalho todo, mas ajuda muito a sustentar o resto, porque eu não vivo dentro de uma bolha e a vida continua a acontecer enquanto tento ser uma pessoa mais consciente. Exponho o meu trabalho, exponho partes de mim, lido com pessoas, absorvo tensões e há coisas que me incomodam a alma, mesmo quando sei perfeitamente que não mereciam tanto espaço. Quem mudou fui eu, o mundo não acompanhou necessariamente o processo e, sinceramente, há dias em que me parece que até se empenhou em piorar. O treino ajuda a libertar muita da merda que vou acumulando, a gastar no corpo uma tensão que, de outra forma, continuaria a ocupar a cabeça. Há coisas que levo comigo para o ginásio cheias de importância e que, no final, já quase não me dizem nada. Continuam a ter acontecido, mas deixam de ter direito ao resto do meu dia. É esta combinação entre o desporto, as minhas rotinas, o que fui descobrindo que me faz bem e a enorme vontade de continuar a olhar para dentro que me tem ajudado a mudar ao longo de mais de uma década. Com dias melhores, outros bastante menos apresentáveis e sem a expectativa de chegar a uma versão final de mim que já não precise de manutenção.

Por isso é que aquele elogio me tocou tanto: quem o disse falou da energia que sente quando eu entro, e eu pensei em tudo o que fui trabalhando para conseguir estar assim. Saber que hoje posso fazer bem a alguém só pela forma como chego, como estou e como me relaciono tem um valor enorme para quem sabe que nem sempre foi essa pessoa. Ainda tenho muito para arrumar cá dentro, mas ouvir aquilo fez com que conseguisse reconhecer o caminho que já fiz, sem o desvalorizar imediatamente à procura do que ainda falta. E, desta vez, deixei o elogio entrar e ficar.
Beijinhos, Eli