Cabo Verde fez-nos lembrar quem realmente admiramos

Cabo Verde fez-nos lembrar quem realmente admiramos

No final, Cabo Verde foi eliminado. O sonho terminou dentro das quatro linhas. Mas aconteceu uma coisa curiosa: a admiração não terminou com o apito final. Se calhar, até cresceu.

Milhões de pessoas começaram a torcer por uma seleção que não tinha os mesmos recursos, o mesmo histórico nem o mesmo favoritismo de outras equipas. E, curiosamente, ninguém se apaixonou pelos números. Apaixonámo-nos por um grupo de pessoas que partilhava um sonho comum. Quando uma equipa conhece a sua identidade, aceita as suas limitações, reconhece os seus pontos fortes e joga com aquilo que verdadeiramente é, acontece algo extraordinário: deixa de querer impressionar e começa simplesmente a inspirar.

É aí que nasce a magia. Porque a autenticidade tem uma característica curiosa. Não precisa de fazer barulho. As pessoas sentem-na, admiram-na e desejam viver da mesma forma.

Conquistaram-nos pela forma como celebravam. Pela humildade. Pela alegria genuína. Pela resiliência. Pela entrega. Pela forma como olhavam para cada jogo como um privilégio e não como uma obrigação. Nunca tentaram ser outra seleção. Nunca se vitimizaram. Nunca se compararam. Aceitaram-se com orgulho.

E porque é que isto aconteceu? A resposta é muito mais simples do que imaginamos.

O nosso verdadeiro eu reconheceu-se neles. Admirámos aquilo que eram e não aquilo que os outros esperavam que fossem. E tudo começou dentro deles.

Entraram em campo conscientes da dimensão do desafio, conhecedores das suas limitações, mas igualmente conscientes daquilo que podiam oferecer: entrega, coragem, humildade e uma vontade imensa de honrar o sonho de representar o seu país e de oferecer alegrias ao seu povo.

Há uma enorme diferença entre querer provar alguma coisa ao mundo e querer simplesmente dar tudo aquilo que se é.

A primeira nasce da comparação. A segunda nasce da identidade.

E é isso que nos emociona, que nos faz tremer as pernas, lacrimejar os olhos, acompanhar pessoas que passaram de cinquenta mil para mais de vinte milhões de seguidores e desejar genuinamente que tenham sucesso.

Vivemos numa época em que somos constantemente pressionados a medir o nosso valor através da comparação e da competição. Comparamos carreiras, corpos, relações, empresas, resultados e até formas de viver. Quase sem nos apercebermos, começamos a acreditar que o nosso valor depende da distância que nos separa dos outros.

Mas o percurso de Cabo Verde lembrou-nos de uma coisa essencial: o sucesso nunca nasce da comparação. Nasce do conhecimento de quem somos.

Curiosamente, é exatamente isso que mais admiramos nos outros. Admiramos pessoas que ocupam o seu lugar com naturalidade. Pessoas que não precisam de representar um papel para serem respeitadas. Pessoas que conhecem as suas fragilidades e, ainda assim, não deixam de avançar.

Então porque é que continuamos a acreditar que connosco tem de ser diferente? Porque insistimos em esconder precisamente aquilo que mais admiramos nos outros? Talvez porque ser autêntico exija coragem. Talvez porque seja muito mais difícil do que tentar corresponder às expectativas de quem nos rodeia. Mas esta seleção lembrou-nos de que o resultado compensa. O que verdadeiramente admiramos nunca é apenas a vitória. É a forma como alguém escolheu percorrer o caminho.

Essa é a verdadeira vitória. No fim do dia, podemos até recordar quem ganhou. Mas aquilo que verdadeiramente deixa marca é quem nos faz sentir alguma coisa.

No fundo, aquilo que todos procuramos não é ser maiores do que alguém. É termos a coragem de sermos inteiramente nós. É isso que nos faz sentir verdadeiramente grandes. Aquilo que mais admiramos nos outros é exatamente aquilo que mais medo temos de viver em nós.

Obrigada Cabo Verde, pela inspiração e autenticidade. Esta mensagem é a cena!

Beijinhos 

Eli