As semanas de moda mais observadas do mundo existem há décadas e regressam todos os anos como um ritual coletivo. Nesta altura decorre a MFW e, como sempre, a moda ganha um foco especial. Ainda assim, não é sobre as passerelles nem sobre o street style que quero falar. Sobre esses haverá sempre tempo para observar, absorver e, mais tarde, opinar. O que me interessa é outra coisa: a ideia silenciosa que se instalou durante anos de que, se não estivermos todos alinhados com a mesma estética, deixamos automaticamente de ser relevantes.
Durante muito tempo construiu-se uma narrativa estranha na moda: ou seguimos tendências ou possuímos estilo próprio, como se estas duas forças fossem incompatíveis. Para mim, nunca foram e talvez nunca tenham sido.
Eu amo tendências. Sempre amei. Observar aquilo que começa quase invisível, sentir mudanças antes de se tornarem evidentes, perceber quando uma silhueta ganha espaço e começa lentamente a alterar a forma como olhamos para o corpo e para a roupa é uma das experiências mais fascinantes dentro da moda. A tendência é linguagem, mas também é energia coletiva, é um reflexo subtil do tempo em que vivemos e daquilo que, mesmo sem percebermos totalmente, começa a mudar em nós enquanto sociedade.
O problema nunca foi a tendência. O problema foi sempre a cópia. A ausência de leitura crítica transforma aquilo que poderia ser expressão individual num uniforme social silencioso. Quando todos utilizam uma tendência da mesma forma, ela deixa de comunicar identidade e passa apenas a sinalizar pertença. Nesse momento, o estilo desaparece e com ele desaparece também a individualidade. Voltamos, sem perceber, a uma lógica quase adolescente em que pertencer parece mais importante do que compreender quem somos dentro do que vestimos.
Identificar uma tendência, no entanto, não significa segui-la. Significa traduzi-la. Sempre vivi a moda dessa forma: primeiro reconheço, depois adapto. Nunca esperei validação para experimentar algo novo, talvez porque o estilo raramente nasce da novidade em si, mas da consciência com que a incorporamos. O estilo acontece quando aquilo que observamos atravessa o filtro da identidade. É por isso que duas pessoas podem vestir exatamente a mesma peça e contar histórias completamente diferentes através dela.
Não se trata de fugir das tendências, mas de impedir que elas nos vistam antes de nós as vestirmos a elas.
Nos últimos tempos, tenho pensado cada vez mais na ideia de repetição. Curiosamente, repetir peças tornou-se hoje mais contemporâneo do que procurar novidade constante. A meshmess ensinou-me isso de forma direta e indireta. Sempre tive dificuldade em repetir combinações, guardo memória quase visual de tudo o que já usei e preciso de sentir entusiasmo naquilo que visto. Quando esse entusiasmo desaparece, algo em mim reconhece imediatamente que a roupa deixou de acompanhar o meu momento interno. Ainda assim, comecei a descobrir o desafio criativo de construir algo novo a partir do que já existe e essa limitação revelou-se inesperadamente libertadora. Obriga a olhar com mais atenção, a reinterpretar, a criar dentro de fronteiras que afinal expandem a criatividade em vez de a reduzir.
Pode parecer contraditório que alguém com uma marca de roupa incentive a reutilização do que já possuímos. No entanto, a própria meshmess nasceu dessa lógica: trabalhar exclusivamente com desperdícios têxteis, desenvolver um monoproduto de tamanho único e permitir múltiplas formas de uso sempre implicou uma reflexão sobre continuidade em vez de consumo. Como consumidora, acabei por aprender com a mensagem que eu própria criei. Um processo simultaneamente irónico e profundamente honesto.
Ter um uniforme pessoal pode ser uma forma de liberdade, mas até essa liberdade começou, em algum momento, como tendência antes de se transformar em escolha consciente. A verdadeira elegância nunca esteve em ignorar o que acontece à nossa volta, mas em saber reconhecer aquilo que realmente nos pertence. O estilo não é resistência à mudança, é a capacidade de mudar sem perder coerência interna.
Algumas pessoas vivem várias versões de si ao longo da vida, atravessando fases, estéticas e identidades diferentes sem que nenhuma invalide a anterior. Talvez por isso a ideia de copiar tendências nunca faça verdadeiro sentido. Se a identidade é naturalmente mutável, então o estilo não pode ser fixo. Existem verdades pessoais que acompanham determinados momentos e que mais tarde se transformam noutras, não porque estavam erradas, mas porque evoluíram connosco.
Amar tendências nunca significou abandonar identidade. Pelo contrário, talvez elas existam precisamente para nos oferecer novos pontos de partida. O estilo começa no momento em que deixamos de seguir automaticamente e passamos, finalmente, a interpretar.
— Eli