A minha terapia transpira

A minha terapia transpira

Mexer o corpo como acto de saúde, consciência e liberdade

Queria muito falar sobre esta temática. Partilho muito e, se me faz bem a mim, não deve ficar só comigo. Deve ser partilhado e agarrado por quem quiser. Aliás, se estás aqui foi por tua iniciativa e não porque o algoritmo do Instagram sugeriu. Só por isso, muito obrigada. Sou-te mesmo grata.

Não será um texto sobre corpos perfeitos, nem sobre abdominais definidos, nem sobre números na balança. É sobre percurso. Sobre fases. Sobre cabeça. Sobre o que o movimento fez — e continua a fazer — por mim e, se pudesse fazer por ti… era incrível.

Escrevo isto como quem está à tua frente numa mesa de café. Sem pose, sem teoria. Sem mimimis. Porque este tema vive melhor assim. A minha experiência. A minha verdade.

Já nem sei bem quando comecei a ir ao ginásio. Na altura nem dizia “treinar”. Dizia “vou ao ginásio” ou “ando no ginásio”. Talvez há uns quinze anos. Comecei num daqueles ginásios só para mulheres, de circuito, meia hora, promessas de milagres. Era ótimo para quem andava sempre com pressa e eu dava-me bem com milagres. Estava bastante badochinha. Sim, esta pessoa já vestiu 42, com gordura abdominal acumulada. Tudo retenção de líquidos… como é óbvio.

Ao fim de algum tempo fartei-me. Não tinha resultado nenhum. Posso ou não ter-me enrolado com um dos professores, mas isso agora não interessa nada. Mas era um gatucho… passemos à frente. O que interessa é que também estava a mudar de trabalho e achei que fazia sentido mudar tudo. Eu gosto de mudanças. Gosto de novidades. Inscrevi-me então num ginásio com muitas opções: aulas, musculação, piscina, sauna… e homens. Aqui entre nós: só mulheres todas juntas é mega 31 e zero silêncio. Amo ser mulher, mas os homens dão-nos algum equilíbrio — somos uma espécie complexa.

Comecei nas aulas coreografadas e percebi logo que a minha relação com a direita e a esquerda não era saudável. Levei encontrões, ninguém queria fazer par comigo; enquanto toda a gente parecia olímpica, eu ainda estava a tentar perceber qual era a perna. Trauma instalado até hoje. Passei para aulas teoricamente mais tranquilas — tudo feito no mesmo sítio — para trabalhar o pandeirinho, as pernas e essas cenas… tudo carregado de pesos que pareciam as cruzes de Cristo — pessoas com muitos pecados, portanto. Eu ia buscar os meus 2,5 kg, ficava falecida e dava por mim a pensar: que gente doida é esta?

Entretanto experimentei o cycling, que ainda se chamava spinning. Não me aguentava de pé vinte segundos. Passar a aula sentada calcificou-me os ossos do rabo e pisou-me o pipi. Um processo. Ia sozinha, muito na minha, sem grandes relações. Hoje sou rela e não dou vez para falarem, mas já fui bicho do mato e bastante tímida em ambientes novos.

Até ao dia em que me convidaram para um grupo de PT. Faltava um elemento. Não sei como se lembraram de mim. Mas acordaram o monstro. “De indiana muito morena, das pernas longas, muito tímida, que ia ao spinning” — era a minha denominação interna, descobri mais tarde. Passei a candidata a Miss Ginásio — acho que perdi a oportunidade de ser Miss qualquer coisa nessa altura.

Eu fazia PT, fazia mais duas aulas por dia, mudei a alimentação toda. Tinha despertador para beber água. Os meus amigos passaram a ser os do ginásio — e ainda hoje são família. Falávamos de treinos durante horas, líamos tudo sobre o assunto. Toda a gente me conhecia. Eu percebia os engates e divertia-me imenso com isso. Fazíamos apostas. Ríamos muito. Confirmo: o ginásio é espaço de engate. Mas só entra quem quer. Também pode ser um espaço onde se pratica a solitude com muita gente — benefícios que colho atualmente.

Os meus partners eram muito mais disciplinados e com muito mais foco: ao fim de semana treinavam e bebiam água. Eu não tinha tempo… era muita vida social. Assim, mesmo muita. E bebia água só ao domingo, para recuperar da sexta-feira e do sábado à noite… ou Coca-Cola e fast food. Dependia do tamanho da festa. Era muita coisa a acontecer e eu ia a todas. Outras vidas que a vida é para ser vivida.

Mesmo assim, os resultados apareceram. Comecei a gostar do que via ao espelho. Cheguei ao pódio: usava macacão colado ao corpo, sem costas, e armava-me entre aulas e máquinas. Que ridículo… Nossa Senhora das Estupidezes.

O mais importante: ganhei uma família. O treino deixou de ser só treino. Passou a ser vida. Jantares só porque sim. Maratonas de cycling. Corridas. Trails. Dramas pessoais. Dramas profissionais. Falávamos de tudo. O ginásio tem esta coisa bonita de juntar pessoas muito diferentes à volta de um propósito comum.

Passei por muitas fases. Muitas mesmo.

Até que chegou a pandemia e fomos para casa.

E aí percebi, a sério, o impacto do desporto em mim. Já não era estética. Era sobrevivência. Ansiedade, medo, insegurança, trabalho a mais, o mundo estranho, eu a ficar estranha. Lembrei-me de, ao fim do dia, ir correr para o meio do mato. Já tinha feito trails e gostava muito. Não via ninguém. Ninguém me via. Era natureza, era silêncio, era libertação. Aos poucos comecei a notar: ficava mais tranquila, dormia melhor, pensava melhor. O treino deixou de ser opção. Passou a ser ferramenta. Foi A CENA para não xanfrar naquele período.

Vieram os treinos em casa. Três anos assim. O Chewie apareceu pelo meio e era o meu parceiro, à maneira dele. Momentos muito engraçados e muito bons. Até sentir vontade de voltar ao ginásio. Já não colhia os benefícios básicos.

Hoje, já com mais de quarenta, já não treino para pernas tonificadas, embora agradeça, nem para barriga chapada, que nunca vai acontecer, nem para atingir um número na balança. Não sei quanto peso. Nunca me peso. A roupa diz-me tudo. Treino o que gosto: cycling, yoga, pilates. E musculação… que, não adorando, vou agradecer daqui a uns vinte anos. Tenho amigos com 67 a fazer CrossFit. Isto, para mim, é saúde.

Mas mais importante do que a parte física é a outra. A invisível. As endorfinas, a dopamina, a serotonina — chamem-lhes hormonas, chamem-lhes o que quiserem — reduzem stress e ansiedade, melhoram o humor, o sono, a cabeça. E, sem filtros: a vida atual é pesada pa caralhinho. Cheia de pressa, de regras, de cobranças. Do mundo e, pior ainda, nossas. Depois admiramo-nos de andar irritados, ansiosos, a explodir no trânsito, no supermercado, nas relações ou connosco, dos burnouts. Onde é que libertamos isto tudo?

Não é por acaso que nascem ginásios todos os dias. Nem desportos novos. O corpo pede descarga. E não me digam que não gostam de nada. Não acredito. Não me enervem. Talvez ainda não tenham encontrado. O erro é achar que mexer o corpo tem de ser sofrimento. Pode ser uma caminhada à beira-mar com phones. Correr no meio do mato. Dançar. Jogar à bola. Fazer paddle. O que for. Mexer e desligar o chip é o que está a valer.

“Ah, mas isso emagrece?” Pode ser que sim. Ou pode ser que não. O que faz emagrecer de forma saudável são os hábitos alimentares. Quem regula a relação com a comida é a cabeça. E quem ajuda a cabeça, muitas vezes, é o movimento. Se baixarem a ansiedade, não comem tanto. Se dormirem melhor, escolhem melhor. Se se mexerem, tudo começa a alinhar.

Não me digam “tu comes porque treinas”. Eu respondo “treina também”. E não me digam “tu és magra, podes comer”. Quem disse que ser magro é sinónimo de saudável? Curiosamente, perdi peso na época das festas. E comi muito, mas muito açúcar…

Por isso, enquanto ainda estamos naquela fase bonita de inícios de ano e resoluções bem-intencionadas, deixo só isto: Mexam esse pandeirinho. Pela vossa rica saúde. Não estou com vontade de largar o tema. E vocês também não me vão largar porque dou nas orelhas… sim… mas com Amorinho.

Dica adicional: quando fizerem um contrato com um ginásio, verifiquem tudinho. Muitos deles são carregadinhos de promessas falsas. Incríveis na inscrição, uns terroristas na desvinculação. Sem ofensa, mas precisam melhorar isso. Just saying.

Just like Eli

 

 

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