Tudo o que não é usado ao fim de um ano deve ser eliminado do closet.

Tudo o que não é usado ao fim de um ano deve ser eliminado do closet.

Quantas vezes já ouviste isto?

Há nesta frase qualquer coisa de limpeza emocional disfarçada de organização estética. Arruma-se o passado, abre-se espaço para o novo, segue-se em frente. Simples. E, aparentemente, eficaz. Eu compreendo essa lógica, mas não a sigo de forma absoluta. Não é assim tão preto no branco.

Reduzir o guarda-roupa a uma regra de fast fashion é ignorar a natureza profundamente emocional, cíclica e até intuitiva da forma como nos vestimos. Não somos lineares e a nossa relação com a roupa também não é. Há fases de expansão, de contenção, de experimentação e de recolhimento. Há versões de nós que pedem silêncio e outras que pedem expressão. E, no meio disso tudo, existem peças que não deixam de fazer sentido, apenas deixam de fazer sentido agora.

É aqui que a regra falha.

 

Porque nem todas as peças são iguais. Há as funcionais, as básicas, as que cumprem um propósito imediato e que, quando esse propósito termina, fazem todo o sentido ser libertadas. Mas há outras, as peças com identidade, com a nossa identidade. As que carregam intenção criativa, que foram escolhidas não apenas para vestir um corpo, mas para expressar uma ideia, um momento, uma versão específica de quem éramos ou queríamos ser. Essas não desaparecem. Ficam em pausa.

Ficam suspensas no tempo, à espera de uma tendência que as devolva ao presente ou de um reencontro interno. Porque o estilo não evolui em linha reta, ele dobra, revisita, ressignifica. O que hoje parece deslocado pode, daqui a anos, voltar a encaixar com uma precisão quase inesperada.

Amo voltar a uma peça anos depois. Há qualquer coisa de profundamente autêntico em sentir que ela continua a falar connosco, como se tivesse esperado exatamente pelo momento certo para regressar. E explicar isto à minha mãe, porque é na casa dela que guardo o que quero guardar. Ela é do team nunca mais vais usar isto e já me deve ter influenciado a doar peças que hoje nunca doaria.

Este vestido está guardado há uns seis anos e voltou a fazer sentido agora. E, de repente, tornou-se o centro de um look absolutamente atual. Não por acaso, mas porque o olhar mudou. Porque a forma de o integrar é outra. A minha identidade até pode já não ser a mesma e, ainda assim, reconhece-se ali.

Para mim, saber o que libertar é tão importante quanto saber o que guardar. E guardar não por apego, mas por intuição. Por aquela sensação difícil de explicar de que, mesmo não sendo para agora, também não é para perder.

No fundo, talvez a pergunta nunca tenha sido “há quanto tempo não uso isto?”, mas sim “isto ainda faz parte de mim, mesmo que em silêncio?”

Porque há peças que não se usam todos os anos. Nem todas as estações. Às vezes, nem durante longos períodos. Mas continuam a existir como extensão de uma identidade em transformação.

E quando regressam, não voltam iguais.

Voltam melhores.