Sobre(t)udo
“Não tens idade para te vestires assim.” “As pessoas da tua idade não se vestem assim.” “Vejo muita gente na rua e só tu é que te vestes assim.” “Não tens vergonha de andares assim?” “Sabes que assim ninguém te leva a sério, não sabes?” “Se passares por mim na rua, podes fingir que não me conheces." “Às vezes tenho vergonha de andar contigo na rua, porque fica toda a gente a olhar.” O silêncio acompanhado de um olhar reprovador, ou o riso de gozo… entre outras coisas.
Durante muito tempo, estas frases colaram-se a mim como etiquetas. Hoje já não colam. Devem ser da Temu 😂. Caem sozinhas. Não me pertencem. E, em verdade, também não é caso para isto tudo. Acalmem-se.
Mas há dias em que dou por mim a tentar perceber porque é que alguém sente necessidade de comentar. É quase um exercício sociológico involuntário. Tento ver pelos olhos de quem diz — porque sabem que eu amo ler pessoas. Sou míope, sim, mas a verdade é que faço uns belos raio-X. Tenham medo 😂.
E o que aprendo? Estas frases não são sobre mim, embora aceite que não agrade a toda a gente — o que não se percebe muito bem, porque sou incrível a armar-me. São sobre elas. Sobre os seus limites, os seus medos, a sua luta diária com o espelho. Sobre o desejo ancestral de encaixar. Sobre o medo primitivo de destoar. Sobre a velha regra social que dita que filho de rei é príncipe e filho de carpinteiro é carpinteiro, e que cada um deve manter-se no molde que lhe calhou.
Mas e se o molde não nos servir? E se apertar? E se sufocar?
Sempre senti que a roupa é mais do que tecido. É vibração. É código. É intenção. É quase uma conversa silenciosa que tenho comigo mesma antes de sair de casa. Por isso, sim, visto-me para mim. Para que o meu espelho me berre: “Ah, caraças, podes tudo.” Pode ser fato de treino ou vestido de renda; desde que me acenda por dentro, está a valer.
E talvez por ter os centros da Cabeça e o Ajna abertos, absorvo tudo o que vejo. Analiso de diferentes ângulos, sinto, antecipo. Tenho esta coisa de Projetora, esta visão de falcão que capta o que ainda nem chegou às fast fashion — mas vai chegar. Não por imitação, mas por intuição. E aplico em mim, no meu molde, por antecipação.
Façam um exercício comigo: entrem num centro comercial com olhos de mera observação. Percorram as lojas. A paleta repete-se, as peças repetem-se, as texturas repetem-se. Os coordenados repetem-se. As combinações repetem-se. As montras repetem-se. Marcas diferentes, o mesmo conteúdo. Conteúdo chato e sem sal. Se a maior parte das pessoas compra em centros comerciais (sem julgamento, ok), a probabilidade de andarmos todos iguais é gigante. A oferta é uma cópia da própria oferta. E, num mundo onde a pertença é quase uma moeda social — principalmente entre os teens —, a diferença parece um crime público.
E, depois ainda, nos continuam a fazer acreditar que vestir-nos como alguém que admiramos nos transforma nessa pessoa. Spoiler: não transforma. Nunca transformou.
É difícil sair do rebanho. Por 1.728.383 razões, todas válidas.
Voltando ao início — eu falo muito e escreve muito - razão suficiente para eu ter um blog :).
Ser influenciada pela moda não é ser refém dela. É absorver tudo, filtrar o que faz sentido e usar o que me representa naquele dia. O meu único critério é simples: esta sou eu, hoje? Se sim, faço a foto e sigo. Amanhã posso ser outra. E está tudo bem. É isso que mais me encanta: sermos vários eus ao longo da vida.
Perguntei-me muitas vezes: em que momento deixámos de pensar pela nossa própria cabeça? E porque é que o mundo se incomoda tanto quando alguém decide fazê-lo?
Li uma frase de um comediante dos anos 50 que foi preso vezes sem conta, que ficou comigo:
“Quando colocamos as pessoas a pensar pela própria cabeça, tornamo-nos um problema para a sociedade.”
Dá que pensar.
E se, afinal, o problema da sociedade não forem as pessoas que se vestem de forma “diferente”, mas sim as que pensam de forma diferente? Que se vestem de si próprias. Ser de verdade não é ser igual e não ser igual é mais complexo de gerir e antecipar comportamentos. Não há grande facilidade em controlar a diferenciação. E este mundo está a (querer) ir para aí a grande velocidade….
Se o meu propósito é lembrar-te que cada pessoa merece expressar-se sem pedir licença, então a minha roupa — tal como a minha vida — é apenas isso:
um lembrete diário de que ser autêntica não deveria ser um ato de coragem…
mas é.
Just Like Eli.
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