O Natal que Vive dentro de Mim

O Natal que Vive dentro de Mim

O Natal.
Não o Natal das redes sociais, das montras ou das playlists que começam em novembro, mas o Natal que eu conheço — o que me atravessa, mexe comigo e às vezes me dá um nó no estômago que nem sei bem explicar.

Para mim, o Natal é família. De sangue ou não. É juntar pessoas, executar tradições, reviver memórias. É estarmos todos juntos desde cedo a preparar a ceia. É das crianças e da inocência delas, enquanto vivem num mundo feito de fantasia, onde só há coisas boas, onde os pensamentos negativos não têm espaço e a ansiedade é uma adrenalina boa. Aquele vai-e-vem entre “portei-me bem ou portei-me mal?”, entre rever quem quase nunca vemos, entre a expectativa de uma casa cheia.

Os meus Natais mais felizes foram assim, os da infância, passados na casa dos meus avós. Éramos tantos, tantos, tantos. Uma família de oito filhos, com noras, genros e netos, muita gente. A cozinha era enorme : mesas de madeira, bancos corridos, um forno gigante onde se cozia o pão, uma lareira de chão onde se preparava o jantar em tachos de ferro gigantes e um pequeno fogão que o meu pai dizia ser “para acompanhar os tempos modernos” (ainda hoje me rio porque ele continua a usar a expressão).

O dia começava cedo. Saltava da cama ainda de noite e corria para casa dos meus avós. Era ali ao lado, mas sabia a dia especial. O estado de espírito era delicioso — quase consigo senti-lo quando fecho os olhos. Havia imensa coisa para preparar e muitos improvisos para encaixar mais de quarenta pessoas.

O meu avô andava sempre atarefado a improvisar mesas e a tentar garantir o máximo de conforto àquela multidão. Eu queria ser útil. Não fazia grande coisa, mas na minha cabeça pequenina a minha ajuda era fundamental e a minha presença, super importante.

E havia três rituais da minha avó que até hoje me apertam o coração de saudade e prazer: a broa de milho acabada de sair do forno, que ela me dava ainda quente com manteiga, o tacho da aletria que eu adorava rapar — mas tinha de ser do tacho, ainda hoje é assim e a rabanada acabadinha de fazer — tradição que mantenho, indo à casa da minha madrinha provar a primeira do ano, cheia de canela.

A meio da tarde começavam a chegar mais mulheres para continuar os preparativos: pôr as mesas, tratar das batatas, dos legumes, do bacalhau e de outros pratos para quem não gostava do bacalhau cozido. A minha geração já foi um bocadinho educada a comer o que gostava e não apenas o que era tradição — não digam isto à minha mãe, porque adoro esse mimo.

Anoitecia e, de repente, a casa estava cheia. Já estávamos todos. O jantar saía em travessas enormes espalhadas pelas mesas. A pequena guerra sobre quem se sentava ao lado de quem. Depois, os doces, só os tradicionais: aletria, mexidos, rabanadas, bolo-rei, pão de ló e pudim. A fartura de uma família que já soube o que é viver com menos. As raízes que admiro, respeito e das quais tenho muito orgulho.

Depois do jantar vinha outro ritual: levantar as mesas, arrumar a cozinha, os homens a jogar à sueca, as mulheres à volta da lareira e nós, os “pikis”, a saltar entre os jogos e o stress porque nunca mais era meia-noite.

Durante muitos anos, depois da abertura dos presentes — religiosamente à meia-noite — comíamos cabidela. Juro que é verdade. Era uma coisa muito nossa. Assim terminava o dia 24 na casa dos avós. Depois havia o segundo acontecimento: o Pai Natal da nossa casa. A minha mãe deixava a janela aberta e montava um teatro tão convincente que os 300 metros entre as casas pareciam quilómetros. Chegávamos e era outra explosão de adrenalina. Dormir? Impossível.

Mas crescemos. E a fantasia de que o Natal é mágico e perfeito deu lugar a uma realidade não tão leve. Perdemos pessoas que eram a alma do dia, a luz de qualquer sala, os pilares que sustentavam estas tradições. E, sem se perder tudo, tivemos de nos adaptar. Mas já não era igual. Nunca mais será. 

De uma família gigante passámos a famílias mais pequenas, porque a vida segue. Hoje, o Natal traz-me saudade, melancolia e um coração inquieto. E a responsabilidade de ainda manter o que trago da infância.

Não consigo deixar de me impactar com as pessoas para quem o Natal significa dor. Ano após ano ouço mais desabafos: “não devia haver Natal”, “detesto esta época”, “queria adormecer agora e acordar no próximo ano”, “estou cansada desta falsa época de amor”. "Tudo gira à volta do comércio, dos presentes, das férias, dos Natais impessoais em hotéis — ou talvez os mais pessoais que alguns já tiveram". "O Natal do comprar tudo feito".

Eu fico ainda mais sensível. Dou por mim a chorar sem motivo e a rir-me porque sim. Uma instabilidade emocional gigante. Tudo ecoa mais forte cá dentro — nota-se até na forma como escrevo. Nem sei bem como descrever esta emoção de tão estranha que é para o corpo. 

E depois há os presentes. Eu adoro oferecer coisas, dá-me mesmo prazer. Pensar na pessoa e ver os olhinhos a abrir. O bullying com amorinho que herdei da minha mãe, uso e abuso. Mas não percebo quando este assunto se transformou num stress. Já fui pessoa de comprar tudo no dia 24 e era maravilhoso. Hoje estou farta. Farta da obrigatoriedade, do “tenho de oferecer porque é Natal”. Gosto não combina com obrigação. O termo imperativo toca-me  numa zona muito frágil. O "tens que".....ativa-me gatilhos muito feios. E hoje decidi: será o último ano em que me incluo neste rebanho. A partir de agora, ofereço quando me apetecer. Sem data, sem pressão. Só porque sim. Porque quero mimar alguém — ou a mim. Está decidido.

Com estas mil alterações da vida adulta, a magia também se foi perdendo dentro de mim. Fui-me adaptando até pensar: “se calhar já não adoro assim tanto”. A última vez que senti algo parecido ao encanto da minha infância foi na primeira vez em que a organização do Natal passou para a nossa casa. Era novidade. Íamos juntar duas famílias, misturar tradições, ser anfitriões. Estava num excitex total — e foi maravilhoso. Agora, repete-se. Sabe bem, muito, muito bem porque Natal é família e sinto-me uma privilegiada com tudo o que tenho mas já não é a mesma coisa. Uma mistura de tristeza e escuridão com leveza e tranquilidade porque tenho as minhas pessoas com saúde e isso É A CENA!

Este ano vai ser diferente. Vai ser daqueles Natais que já estou a imaginar o caos antes de ele acontecer: muita gente, muitos miúdos, idiomas misturados, tradições cruzadas e dois cães ( a minha maior preocupação :)) a tentarem perceber porque é que, de repente, existe uma plateia e quem são aquelas pessoas. Haverá improvisos, adaptações, caos. Mas o Natal não é isso? Família com todos.

Depois conto-vos como foi.
Com certeza terá emoção, honestidade… e, com toda a certeza, umas boas gargalhadas.

Feliz Natal

Just like Eli.

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