Eu não desisto. Eu deixo de querer.

Eu não desisto. Eu deixo de querer.

E podia ser só uma forma bonita de dizer que insistia demais, de me enganar a mim própria… que ficava mais tempo do que devia, que dava voltas desnecessárias, que empurrava situações para ver se, de alguma forma, ainda resultavam.

Mas não é isso. Porque cá dentro as emoções são completamente diferentes.

 Eu não desisto, eu deixo de querer.

 E deixar de querer é deixar de sentir dor e começar a sentir paz.

Desistir, pelo menos na forma como sempre o senti, vem carregado. Vem com peso, com frustração, com aquela sensação de que falhei, que ainda não tentei tudo. Fica sempre um “e se”, uma dúvida, um ruído qualquer que não desaparece.

Deixar de querer não tem nada disso. Deixar de querer acontece depois. Depois de já ter tentado, admito que, muitas vezes, muito mais do que devia. O mundo todo já viu que não dá em nada e eu continuo ali, com mais uma tentativa, mais uma oportunidade, mais um “ainda não é agora”. Porque é no meu tempo, no que os meus olhos ainda veem, no que o meu coração ainda sente. 

Deixar de querer. É uma conclusão silenciosa. E é por isso que, quando olho para trás, não encontro assuntos por resolver. Também não encontro nada que possa ser recuperado e recomeçado a partir dali. Não existem propriamente coisas das quais tenha desistido. Encontro coisas que, a certa altura, deixaram de fazer sentido para mim. Não porque não funcionaram, não porque eu não consegui, mas porque deixou de existir em mim vontade suficiente para continuar a investir ali.

 

E isto é difícil de explicar, porque acontece, literalmente, assim: fui dormir e deixei de querer.

 

E quando isso acontece, já não há regresso possível. A desilusão já aconteceu, a vontade de discutir desapareceu, aquele sítio já não é para mim, aquela pessoa já não me acrescenta, aquele projeto já não é o meu, aquele prato, que era o meu favorito, enjoa-me. E eu fico em paz. Sem ressentimento.

E deslarguem-me, deixem-me ir às vidas, porque quando chego a este ponto, à indiferença sentida, o meu silêncio é uma faca direta ao coração de quem ainda está do outro lado, e quando lá chega ainda roda. E eu sei que dói. 

Desculpem-me, não é intencional. É só a vida a seguir depois de mil avisos de que um dia íamos chegar aqui. Sim, eu aviso. As pessoas sabem, mas não me ouvem. E a minha cabeça também sabe.

 

Porque, enquanto eu quero, eu fico. Enquanto eu acredito, eu tento. Enquanto algo faz sentido dentro de mim, eu não saio, mesmo quando não é fácil, mesmo quando não é imediato, mesmo quando não é perfeito, mesmo quando me rebentam por dentro.

 Mesmo quando nem sei bem o que estou a fazer ou qual é o próximo passo, mesmo quando me sinto presa num quadrado 1:1 escuro, sem janelas. Mesmo quando grito, em desespero: “QUERO SAIR DAQUI”. E, ainda assim, não consigo sair.

Mas quando esse querer desaparece, não há esforço que o substitua. E não há culpa nisso. Há exatamente o oposto: paz, tranquilidade, serenidade.

Isto não invalida os dias em que tudo pesa mais. Há dias em que me sinto tão, mas tão derrotada, em que questiono se estou a insistir no sítio certo, em que fico sem forças e acho que a vida me deve qualquer coisa, que sou a maior injustiçada do mundo, que fui esquecida pelos meus anjos.

 

Há dias em que só queria passar o comando da minha vida a alguém e pedir: “passa este nível por mim” .

(expressão rapinada a uma amiga muito criativa )

 

Há uma frase que me acompanha há anos e que, cada vez mais, me parece menos contraditória e mais verdadeira:

 

eu sempre tive o que quis. Nunca tive quando quis. E muitas vezes, quando tive… já não quis.

Durante muito tempo, isto pareceu-me mais uma cena da minha cabeça. Hoje, parece-me lógico, porque os factos não mentem.

Implica aceitar que aquilo que eu quero não é fixo. Que muda comigo. Que evolui à medida que eu própria evoluo. E que, por isso, há coisas que deixam de encaixar, não porque estavam erradas, mas porque já não são para mim.

E talvez seja exatamente aí que está a diferença.

Não na ideia de continuar sempre, nem na de largar ao primeiro sinal de dificuldade, mas nesta capacidade silenciosa, pouco visível, mas muito clara de perceber quando algo ainda vive em mim… e quando já não.

E, no meio disto tudo, há uma pergunta que tenho vindo a fazer cada vez mais vezes, quase como um ponto de referência:

eu ainda quero?

A resposta de hoje é: sim, quero. Quero muito.

Eli.