A fragilidade da empatia em tempos de medo

A fragilidade da empatia em tempos de medo

Há mais de uma semana que o estado do tempo nos deixou sem chão. Ninguém está indiferente a esta calamidade. O nosso pequeno país, que apesar de já ter sido bem mais, ainda vive, por comparação com o mundo, num relativo sossego, passou, de um dia para o outro, a ter zonas de guerra: uma escuridão muito mais funda do que a mera falta de luz.

Casas destruídas, o património de uma vida a desaparecer, empresas e negócios de família construídos ao longo de décadas que talvez não consigam sobreviver. De um dia para o outro, regredimos um século: sem água, sem eletricidade, sem comunicações. Ter de viver sem o que dávamos por garantido. Como é que se faz isto sem qualquer aviso prévio?

E depois há a enorme sensação de impotência perante uma natureza que dita as regras sem pedir opinião. Por mais que se faça, nunca será possível devolver áquelas pessoas a vida que tinham, nem apagar da memória o horror destes dias. Num cenário que parece não ter fim à vista, instala-se um cansaço pesado e as forças começam a falhar. Depois do choque vem a constatação: a realidade impõe-se e a dor assume o papel de protagonista.

E nós, que estamos deste lado, felizmente seguros e confortáveis, abrimos a torneira e sai água, pedimos à Alexa para acender a luz e, se estão a ler isto, é porque têm tecnologia e comunicações. Qual é, então, o nosso papel na sociedade, perante estas pessoas? Qual é o comportamento mais correto? Para além das ajudas óbvias, amplamente partilhadas, nisso somos do caraças, há uma necessidade quase instintiva de segurar a tribo, o que é adequado fazer?

Continuar a partilhar, de forma massiva, as necessidades. Contribuir com bens essenciais ou apoio financeiro. Ir para o terreno. Mas será que todos temos as competências necessárias, ou correremos o risco de criar mais problemas?

E a nossa vida a acontecer, importa, neste momento? Devemos partilhar ou devemos ficar quietos? O comportamento “correto” é o silêncio, por respeito, porque parece estranho, até ridículo, mostrar novidades, projetos, conquistas, desafios, os mimimis do dia a dia? Ou, pelo contrário, é necessário preservar alguma normalidade, para que quem está a atravessar esta dureza encontre esperança no que vê, no que ouve, no que intui?

Ouvi testemunhos profundamente emotivos de pessoas que agradeciam aos locutores de rádio, porque eram a única companhia quando já não tinham nada, apenas um rádio a pilhas. E li também depoimentos de pessoas a quem não fazia sentido mostrar fosse o que fosse, dada a situação. Sentiam que não estavam a demonstrar o devido respeito.

Eu entendo. Por aqui, não tenho clareza alguma. Há dias em que estou na dor e tudo o que eu possa dizer ou fazer me parece deslocado. Como assim estás a rir-te, ou a fazer planos? Tento, e sei que não consigo, pôr-me nos sapatos de quem está a viver o horror e é devastador. Por mais que se faça, soa sempre a insuficiente. Vejo notícias, falo com quem lá está e sinto o sofrimento a correr-me nas veias. É ter de recomeçar, sabe Deus como, quando e em que condições, aos 50, 60, 70 anos. Famílias desfeitas. Animais perdidos. Crianças traumatizadas. Como assim, vida? Como assim?! Porquê?

E depois há outros dias em que, ao ver as notícias e ao falar com as mesmas pessoas, parece-me quase um dever continuar a mostrar que a vida pode e vai continuar. Cada um naquilo que já é, no online e no offline. Como se o nosso dia a dia, de alguma forma, fosse tecendo uma rede cada vez maior de amparo e esperança. Seja pelo sorriso que se arranca, pela gargalhada que devolve fôlego, pelo insight do que vi ou li para ajudar a recomeçar, pela normalidade que, desesperadamente, também querem voltar a sentir.

A linha que separa a empatia e o respeito pelo outro da ideia de que “a vida continua” é muito ténue e ultra sensível. Tenham força e coragem. Não estamos indiferentes. Estamos impotentes e movidos pelo medo, e poderemos ter atitudes que nem todos entendam. Mas, se errarmos, é por medo, não por falta de respeito nem de empatia. Desculpem-nos.

Just Like Eli 

 

Voltar para o blogue